
Dos 22 deputados federais que atualmente exercem mandato pelo Ceará, 19 estão na disputa por uma vaga na Câmara dos Deputados nas eleições de 2026. O número representa 86,36% da bancada cearense e coloca o Estado ligeiramente acima da média nacional de recandidaturas, de 85,38%. No país, 438 dos 513 deputados em exercício decidiram concorrer novamente ao cargo.
Os três integrantes da atual bancada que não buscam permanecer na Câmara são Luizianne Lins (Rede), candidata ao Senado; Júnior Mano (PSB), que deixou a disputa de deputado federal para ocupar a primeira suplência na chapa de Cid Gomes ao Senado; e Eunício Oliveira (MDB), que não concorre a cargo eletivo neste ano. Com isso, independentemente do resultado das urnas, pelo menos três dos atuais 22 nomes da bancada não estarão na composição eleita para a próxima legislatura.
A quantidade de parlamentares buscando permanecer em Brasília contrasta com o tamanho da disputa. Levantamento atualizado em 12 de setembro, a partir de informações da Justiça Eleitoral, apontava 295 candidaturas registradas para deputado federal no Ceará, das quais 277 estavam efetivamente concorrendo e 18 apareciam como inaptas. Como o Estado dispõe de 22 cadeiras na Câmara, são aproximadamente 12,6 candidatos concorrentes por vaga.
Os 19 deputados em exercício que disputam novamente uma cadeira representam, portanto, cerca de 6,9% dos 277 concorrentes, embora ocupem hoje 86,4% das vagas destinadas ao Ceará.
Os registros eleitorais ainda podem sofrer alterações por decisões da Justiça Eleitoral. O DivulgaCandContas, mantido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), reúne os pedidos de registro, situação das candidaturas e informações de campanha, enquanto a base de dados abertos do tribunal é atualizada várias vezes ao dia.
Quem são os 19 que tentam permanecer
Estão novamente na disputa para deputado federal AJ Albuquerque (PP), André Fernandes (PL), André Figueiredo (PDT), Célio Studart (PSD), Danilo Forte (PP), Domingos Neto (PSD), Dr. Jaziel (PL), Eduardo Bismarck (PV), Fernanda Pessoa (PSD), Idilvan Alencar (PSB), Inácio Arruda (PCdoB), José Airton Cirilo (PT), Luiz Gastão (PSD), Matheus Noronha (PL), Mauro Filho (União Brasil), Moses Rodrigues (União Brasil), Priscila Costa (PL), Robério Monteiro (PSB) e Yury do Paredão (MDB).
Entre eles estão parlamentares em primeiro mandato e políticos que acumulam décadas de atuação no Congresso.
A eleição para deputado federal, porém, não funciona como uma simples lista em que os 22 mais votados ficam com as vagas. O sistema é proporcional: os votos recebidos pelos candidatos também são contabilizados para partidos e federações, e a quantidade de cadeiras conquistadas por cada grupo depende desse desempenho. Somente depois as vagas são preenchidas pelos candidatos mais votados dentro das legendas ou federações que atingiram os requisitos previstos pela legislação.
Por que a conta também pode aparecer como 18?
Há uma particularidade importante na composição da bancada cearense. O GerardNews adotou como referência para a taxa de 86,36% os 22 deputados que estão em exercício atualmente, mesmo critério utilizado pelo levantamento nacional de recandidaturas.
A fotografia atual não é exatamente a mesma produzida pelas urnas em 2022.
José Guimarães (PT), eleito para a atual legislatura, está licenciado do mandato desde 14 de abril deste ano para exercer o cargo de ministro da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República. Em seu lugar, assumiu como suplente Inácio Arruda (PCdoB), que é candidato a deputado federal em 2026.
Outra mudança ocorreu em julho. A Câmara declarou a perda do mandato de Dayany Bittencourt (União Brasil) após decisão da Justiça Eleitoral e retotalização dos votos das eleições de 2022. A cadeira passou para Priscila Costa (PL), atualmente deputada titular. Tanto Priscila quanto Dayany aparecem entre as candidaturas de 2026.
Por isso, a resposta muda conforme a pergunta. Entre os 22 deputados que estão em exercício agora, 19 concorrem à Câmara: 86,36%. Se a referência forem exclusivamente os 22 nomes originalmente eleitos em 2022, 18 voltam a disputar o cargo de deputado federal: 81,82%.
A distinção é importante para evitar que números diferentes sejam apresentados como contraditórios quando, na verdade, utilizam bases distintas.
Ceará mantém alta taxa de tentativa de reeleição
O movimento não é novidade. Nas eleições de 2022, 19 dos 22 integrantes da bancada cearense daquele momento também tentavam permanecer na Câmara. Quatro anos depois, considerando os parlamentares atualmente em exercício, o número é novamente o mesmo.
Em 2026, os 86,36% registrados no Ceará estão 0,98 ponto percentual acima da média brasileira. O levantamento do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) mostra que 438 dos 513 integrantes da Câmara disputam a recondução. Para deputados, diferentemente do que ocorre com presidente, governadores e prefeitos, não existe limite de reeleições consecutivas.
É justamente por isso que a atual bancada reúne parlamentares em diferentes estágios da carreira: alguns chegaram à Câmara nesta legislatura, enquanto outros já passaram por três, quatro ou cinco legislaturas.
Quem são os veteranos da bancada
Para evitar uma classificação subjetiva de “medalhão”, o GerardNews considerou como veteranos os candidatos que já exerceram mandato na Câmara em pelo menos três legislaturas.
Por esse critério, seis nomes se destacam. André Figueiredo e José Airton Cirilo já exerceram mandato em cinco legislaturas; Danilo Forte, Domingos Neto e Inácio Arruda aparecem em quatro; e Moses Rodrigues, em três. A contagem considera legislaturas em que houve exercício do mandato, inclusive períodos como suplente, e não significa necessariamente quatro anos completos em cada uma delas.
A longevidade, por si só, não mede a produtividade ou a qualidade da atuação de um parlamentar. Uma maneira de observar resultados concretos é verificar quais propostas apresentadas por esses deputados conseguiram atravessar Câmara, Senado e sanção ou promulgação até se transformar efetivamente em legislação.
Projetos dos veteranos que viraram lei
No caso de André Figueiredo, um exemplo recente é o Projeto de Lei 4.537/2024. De autoria do parlamentar cearense, a proposta deu origem à Lei 15.092/2025, que reconheceu como patrimônio cultural brasileiro as barracas de praia e a atividade dos barraqueiros da Praia do Futuro, em Fortaleza. O texto foi sancionado com veto parcial.
José Airton Cirilo é autor do Projeto de Lei 4.137/2008, que se transformou na Lei 13.082/2015. A norma instituiu o Dia Nacional do Humorista, celebrado anualmente em 12 de abril. A proposta tomou como referência o aniversário do humorista cearense Chico Anysio.
Inácio Arruda apresentou, ainda em 1997, o Projeto de Lei 3.842, que percorreu um longo caminho no Congresso até resultar na Lei 12.303/2010. Conhecida como Lei do Teste da Orelhinha, a norma tornou obrigatória a realização gratuita do exame de emissões otoacústicas evocadas em crianças nascidas em hospitais e maternidades, instrumento utilizado para a identificação precoce de problemas auditivos.
Danilo Forte é autor do Projeto de Lei Complementar 18/2022, que deu origem à Lei Complementar 194. A norma classificou combustíveis, energia elétrica, comunicações e transporte coletivo como bens e serviços essenciais e alterou as regras relacionadas à cobrança de ICMS sobre esses setores. A proposta ganhou destaque nacional durante a escalada dos preços dos combustíveis em 2022.
Domingos Neto aparece como coautor, ao lado de outros deputados, do Projeto de Lei Complementar 192/2023. A proposta foi convertida na Lei Complementar 219/2025, que alterou regras da Lei das Inelegibilidades, incluindo os prazos e os marcos de início e fim da contagem das inelegibilidades, além de prever o Requerimento de Declaração de Elegibilidade.
No caso de Moses Rodrigues, um exemplo importante exige uma distinção: sua participação ocorreu como relator, e não como autor original da medida. Em 2021, Moses relatou na Câmara a Medida Provisória 1.034 e apresentou o Projeto de Lei de Conversão 12/2021. O texto acabou convertido na Lei 14.183/2021, que tratou, entre outros pontos, de tributação de instituições financeiras, incentivos à indústria química e regras de isenção de IPI na compra de automóveis por pessoas com deficiência.
A diferença entre autoria, coautoria e relatoria é relevante. Uma lei não é “aprovada por um deputado” isoladamente: propostas precisam percorrer o processo legislativo e receber a aprovação das Casas do Congresso quando exigido, além da sanção presidencial ou promulgação. Os exemplos acima mostram projetos em que há participação documentalmente identificada dos parlamentares e não constituem um levantamento completo de toda a produção legislativa de cada um.
Com 277 candidaturas concorrendo a apenas 22 vagas, as urnas de 4 de outubro vão definir não apenas quais partidos e federações terão maior espaço na representação do Ceará, mas também até que ponto uma bancada marcada por elevada tentativa de continuidade será mantida ou renovada