
Em um mercado cada vez mais cercado por inteligência artificial, automação e ferramentas capazes de produzir textos, apresentações e análises em segundos, uma habilidade essencialmente humana continua ganhando espaço: saber se comunicar.
Levantamento do LinkedIn sobre as habilidades profissionais em alta colocou a comunicação na segunda posição entre as competências que mais crescem no Brasil, atrás apenas da alfabetização em inteligência artificial. Na sequência aparecem pensamento estratégico, retenção de clientes e política comercial.
O movimento também aparece no relatório Future of Jobs 2025, do Fórum Econômico Mundial. Entre os empregadores consultados, 61% apontaram liderança e influência social como competências centrais para suas equipes. Empatia e escuta ativa foram consideradas importantes por 50%.
Os dados indicam um paradoxo do novo mercado de trabalho: quanto mais ferramentas tecnológicas surgem para auxiliar profissionais, maior pode ser a necessidade de desenvolver habilidades humanas capazes de gerar confiança, interpretar necessidades, conduzir conversas e apresentar ideias.
“Hoje temos ferramentas que ajudam a criar uma apresentação, escrever um texto ou organizar argumentos em poucos segundos. Mas, na hora de uma reunião, negociação ou conversa com um cliente, ainda existe uma pessoa diante de outra pessoa. Saber transmitir confiança e, principalmente, saber ouvir continua fazendo diferença”, avalia Apolo Scherer Filho, advogado, corretor de imóveis, professor e palestrante.
Falar bem não significa falar muito
Uma das ideias defendidas pelo especialista é que boa comunicação não deve ser confundida com vocabulário sofisticado ou capacidade de falar durante longos períodos.
Em negociações comerciais, por exemplo, ouvir pode ser tão importante quanto argumentar.
Escuta ativa, perguntas abertas, entonação, pausas, linguagem corporal e capacidade de adaptar a mensagem ao interlocutor são elementos que podem interferir na maneira como uma informação é recebida.
“Existe uma ideia de que um bom vendedor precisa ter uma resposta para tudo ou falar o tempo inteiro. Muitas vezes acontece o contrário. Uma boa pergunta e a capacidade de ouvir o cliente podem revelar muito mais sobre o que ele realmente precisa”, explica Apolo.

Oratória pode ser aprendida?
Outro mito comum é associar a desenvoltura para falar em público exclusivamente à personalidade.
Para Apolo, embora algumas pessoas tenham mais facilidade inicialmente, comunicação e oratória podem ser desenvolvidas com técnica e prática.
Preparação da mensagem, ritmo da fala, postura, contato visual, pausa, modulação da voz e organização dos argumentos são alguns dos elementos que podem ser treinados.
O próprio mercado de trabalho tem reforçado a importância das chamadas habilidades humanas. Além de liderança e influência social, o Fórum Econômico Mundial coloca competências como pensamento criativo, motivação, autoconsciência, empatia e escuta ativa entre aquelas consideradas importantes pelos empregadores.
Comunicação também influencia vendas
No ambiente comercial, a habilidade ganha uma camada adicional.
Um vendedor pode dominar tecnicamente determinado produto ou serviço, mas ainda precisa transformar esse conhecimento em uma mensagem compreensível para o cliente.
Isso significa entender necessidades, reduzir dúvidas, explicar benefícios e conduzir uma negociação sem transformar a conversa apenas em uma sequência de argumentos comerciais.
“Vender não deveria significar pressionar alguém a comprar. A comunicação eficiente começa quando o profissional consegue entender um problema e apresentar uma solução de maneira clara. A persuasão precisa nascer da confiança, não da pressão”, afirma Apolo.
Experiência virou livro
A partir das experiências em negociações, palestras, salas de aula e treinamentos profissionais, Apolo reuniu parte dessas técnicas no livro “Oratória e Vendas”.
A publicação aborda temas como estruturação de apresentações, linguagem corporal, ritmo e entonação da voz, escuta ativa, storytelling, negociação, comunicação por WhatsApp e Instagram, follow-up e técnicas aplicadas ao processo de vendas. O conteúdo também discute conceitos de persuasão e neurociência aplicados à comunicação.
A proposta é apresentar a oratória não apenas como uma habilidade destinada a quem sobe em um palco, mas como ferramenta utilizada diariamente por profissionais em reuniões, apresentações, atendimento ao cliente, liderança e negociações.
“Nem todo mundo vai fazer uma palestra para centenas de pessoas, mas praticamente todo profissional precisa defender uma ideia, participar de uma reunião, conversar com um cliente ou explicar por que aquilo que oferece tem valor. É aí que a oratória deixa o palco e entra na vida profissional”, destaca Apolo.
Tecnologia muda, mas relacionamento permanece
Segundo o LinkedIn, cerca de 70% das habilidades utilizadas na maioria das profissões devem mudar entre 2015 e 2030, impulsionadas também pelo avanço da inteligência artificial.
Ao mesmo tempo em que aumenta a necessidade de alfabetização em IA, competências como comunicação e pensamento estratégico continuam entre as habilidades que mais crescem.
Para profissionais que atuam diretamente com vendas, liderança ou atendimento, o cenário indica que acompanhar a transformação digital não significa abandonar competências tradicionais.
Pelo contrário: em um mercado no qual cada vez mais pessoas têm acesso às mesmas ferramentas tecnológicas, a maneira como cada profissional se relaciona, explica, negocia e transmite confiança pode se tornar um dos principais pontos de diferenciação.
Sobre o autor
Apolo Scherer Filho é advogado, corretor de imóveis, professor e palestrante. Possui MBA em Comunicação e Oratória e MBA em Neurociência e Vendas. Também exerce a função de vice-presidente do CRECI Ceará e atua como professor do Ciclo Imobiliário. É autor de quatro livros.
Mais informações sobre a publicação estão disponíveis em oratoriaevendas.com.br.